quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Entrevista a Fernando Ruas






Por: TERESA CARDOSO in "JN"


Regionalização é retomada por Fernando Ruas, reeleito na presidência da Câmara de Viseu, como forma de acabar com um país que continua assimétrico. Universidade pública é uma guerra de que não desistirá

Com os sistemas de esgotos e de água a 95 e 98 por cento e uma malha viária que diz ser das "melhores" da região, Fernando Ruas parte para o sexto e último mandato na presidência da Câmara de Viseu, com o propósito de apostar mais no imaterial.

Educação, cultura e lazer serão a "pedra de toque". Quer deixar no município uma marca forte de "trabalho em equipa". Sustenta que o futuro do concelho passa por uma aposta equilibrada nos serviços, turismo e indústria e defende a regionalização como meio privilegiado para combater o "centralismo do Governo". A Universidade Pública, a auto-estrada para Coimbra e a ferrovia voltam a ser três das suas bandeiras.

Seis eleições, seis vitórias, a última a mais folgada. Explicação?
Os eleitores sabiam que era o meu último mandato e fizeram o exame final. São cidadãos muitos esclarecidos. A votação reforçada, talvez das melhores coisas que já me aconteceram, reconhece o trabalho feito ao longo de 20 anos. Mas também aumenta a minha responsabilidade. Normalmente as pessoas afrouxam quando estão a terminar alguma coisa. Eu não o farei. O propósito é fazer mais e melhor.

O caso das "pedradas" afectou de alguma forma o seu prestígio?
As pessoas perceberam muito bem essa história e nunca duvidaram que usei linguagem vulgar e em sentido figurado. Os vigilantes da natureza nunca estiveram em causa, mas sim quem os mandou lá. Alguém que usou recorrentemente as competências que tinha naquele serviço [Ministério do Ambiente] para fazer política contra a câmara.

Sente-se injustiçado?
Esticaram bastante a minha ida ao tribunal. Mas os juízes políticos provaram que fiz aquilo em nome do concelho. Mesmo que tenha havido algum exagero de linguagem, esse exagero ficou aquém do que utilizei quando reivindiquei aquele tribunal.

Atiraria pedras a alguém?
Nunca atirei a um pardal, quanto mais a uma pessoa. Nem com uma fisga.

Este processo marcou-o?
Marcou-me. Foi um choque. Sobretudo quando vi a minha fotografia de costas na barra do tribunal. Mas também me enriqueceu. Ouve-se falar muito da justiça e vale a pena ter alguma experiência.

Espera que o recurso interposto pela defesa lhe será favorável?
Estou convencido que sim. Juntaram-se ao processo pareceres de conceituados especialistas na matéria que irão possibilitar outra análise dos factos.

O PS ganhou ao PSD concelhos vizinhos. Como vai relacionar-se?
Não há nenhuma dependência em relação a Viseu. Mas confesso que num ou noutro desses concelhos não se começou bem.

Algum em especial?
Por exemplo, um jovem que nem conheço pessoalmente, mas que gostaria de felicitar, começou logo por querer medir forças comigo. Não percebo qual é a intenção.

Está a referir-se a quem?
Achei surpreendentes as declarações do novo presidente da Câmara de Mangualde [João Azevedo]. Quando tomou posse, declarou numa entrevista que tinha acabado a subserviência em relação a Viseu. Costuma dizer-se que só se atiram pedras às árvores que dão bons frutos. Mas eu gostaria de lembrar, sobretudo a um jovem, que o trabalho não se avalia por aquilo que se diz quando se começa, mas quando se termina.

Viseu e Mangualde têm projectos comuns...
É o caso do abastecimento de água a partir da barragem de Fagilde. Até por isso, entendo que devia haver algum comedimento. Viseu gere o sistema e a conta-corrente chega a atingir alguns valores. Apesar disso, a Câmara de Viseu nunca se queixou publicamente de atrasos. Tirando isto, espero continuar a ter um bom relacionamento com Mangualde e com todas as câmaras do distrito.

José Junqueiro, um dos seus adversários, tem agora funções governativas. É uma mais-valia para o seu concelho?
Acho que sim. Nunca tive dúvidas que o doutor José Junqueiro, à sua maneira, gosta de Viseu e quer que o concelho se desenvolva. Enquanto secretário de Estado da Administração Local, pese embora a equidistância que se exige a um governante, espero que tenha em conta a realidade concelhia. Às vezes, os interesses da Administração Central são contraditórios com os de Viseu e é preciso tomar opções.

A regionalização voltou à agenda política. Continua a fazer sentido?
Nunca fez tanto sentido como agora. Este poderia ser, de resto, um exemplo paradigmático de desacordo com a Associação Nacional de Municípios (ANMP). Mas não é. Embora tenha colegas que discordam do processo de regionalização, a associação é a favor.

Que vantagens pode a regionalização trazer hoje ao país?
Todos os objectivos que se traçaram, nos últimos anos, para um Portugal mais solidário, harmonioso e menos assimétrico, foram esquecidos. Presumo, por isso, que a regionalização será o último garante desse desafio.

O Governo pensará da mesma maneira?
Gostava de ver esta matéria mais explicitada no seu programa e saber, sem ambiguidades, se é um tema prioritário e para avançar. É que não conheço, nunca vi, nem me lembro de um Governo tão centralista. Mesmo alguns avanços que já tinham sido feitos, foram alterados. É o caso dos presidentes das comissões de coordenação e desenvolvimento regional que antes eram eleitos pelos autarcas, e agora são nomeados. Por outro lado, o Governo só nos vai mandando dinheiro porque a lei a isso o obriga. É por estas e outras razões que a regionalização está actualíssima. Só não percebo porque se arrasta há tantos anos.

Viseu tem em 2010 um orçamento de quase 100 milhões. Qual o peso das verbas do QREN?
Não tenho essas contas feitas. Contudo, como o dinheiro do QREN atrasou vários anos, quando já devia estar em pleno, é natural que os fluxos financeiros sejam mais abundantes. Se o soubéssemos, em rigor, a previsão até poderia ser menos cautelosa.

Viseu tem uma situação estável?
Estável com esta gestão. Se seguisse alguns conselhos de pseudo especialistas na matéria, as contas desequilibravam-se num instante. Eu é que não vou nisso.

O milhão que tem depositado no BPP está seguro?
Era o que faltava que não estivesse. A Câmara não tem colchões e os cofres não são invioláveis. Por isso, abrimos concurso e depositámos dinheiro em quem oferecia melhores condições. Ganhou o BPP. Não fizemos nenhuma operação de risco. O Estado tem a obrigação e o dever de garantir esse tipo de operações.

Este mandato será o melhor?
Nos últimos 20 anos fiz a casa. Nos próximos quatro, vou pôr os móveis. À parte a linguagem metafórica, estou a referir-me a apostas fortes na qualificação das nossas escolas, na construção do centro de artes e, entre outros, numa praia fluvial topo de gama.

Que marca pessoal quer deixar?
O trabalho em equipa. Gostava que dissessem, um dia, que passou pela Câmara de Viseu gente que deu o seu melhor.

Que matriz defende para Viseu?
Um concelho é desenvolvido se tiver capacidade de atracção demográfica. Nos últimos 18 anos, só Setúbal, Braga e Leiria conseguiram atrair mais pessoas do que Viseu. O nosso grande segredo é distribuir os sectores de actividade de uma forma equilibrada e ter uma cidade de serviços muito completa. E continuar a apostar na indústria, como estamos a fazer, com o lançamento do Parque Tecnológico Campo-Lordosa que se irá juntar aos três existentes.

Não é masoquismo insistir na Universidade Pública?
Com ou sem masoquismo, se fosse eu a decidir já cá estava. O ministro da Ciência e do Ensino Superior negou-a na anterior legislatura. Agora esperamos que diga sim. Se o não fizer, os viseenses que reajam. Pela nossa parte, não desistiremos nunca.

O comboio e auto-estrada Viseu/Coimbra são outras reivindicações...
Se não formos determinados, esses dois dossiês podem ter o mesmo desfecho da Universidade Pública. Nunca ninguém disse que não a uma coisa e outra mas, na verdade, estamos a perder tempo. E, qualquer dia, até vêm dizer que já não se justificam. É bom que não esqueçam, num caso e outro, que há terrenos comprometidos e proprietários à espera de uma decisão.

Protestar vale a pena?
Viseu não tem sido muito prejudicado e goza de uma situação privilegiada porque sabe reivindicar. Não há concelhos dinâmicos com munícipes submissos.

QUEM
É

QUEM


Nome: Fernando de Carvalho Ruas

Naturalidade: nasceu em Farminhão a 15 de Janeiro de 1949

Formação Académica: Licenciado em Economia

Cargo: preside à Câmara de Viseu desde 1990, função que acumula com a presidência da Associação Nacional de Municípios Portugueses desde Abril de 2002.
A 4 e 5 de Dezembro, no congresso a realizar em Viseu, tudo indica que volte a ser reconduzido na liderança daquela associação. O autarca recusa a ideia de que acumulação de funções o afaste dos interesses do seu município. "Pelo contrário, só tem trazido vantagens. Liderar a "escola" e "casa-mãe" da democracia portuguesa, só nos enriquece. Por isso este lugar é tão disputado. Analisamos os problemas retirados de toda e qualquer componente partidária e chegamos sempre a consenso. É a grande virtude da ANMP", reconhece Fernando Ruas.

1 comentário:

Anónimo disse...

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